Noite feliz, sonho feliz!
- Beto Scandiuzzi
- 29 de dez. de 2023
- 3 min de leitura
Nessa época de natal, quando se costuma trocar presentes, sempre digo à minha família: não me deem nada, não preciso de nada. Mas, se querem me regalar algo, insisto, apostem nos livros, de papel, com cheiro e que sempre me fazem falta. Ganhei alguns, mas o melhor presente acho que veio do próprio Papai Noel: um sonho.
Nesse sonho eu estava sentado em um daqueles bancos de granito doados pelos primeiros moradores, na praça da estação do lugarejo onde nasci. A praça ainda era a antiga, com uma humilde imitação de obelisco e uma fonte luminosa no centro, quase sempre sem água e sem luz, árvores de fícus infestadas de “lacerdinhas” e a estação da Cia. Mogiana ao fundo.
Um sol oblíquo e esquentado batia no meu rosto, fazia calor como sempre, mas uma brisa leve de verão tentava amenizar a temperatura. Longe se podia divisar, pranchado, o vale do rio Grande. Em frente à praça está o bar dos Marçola com gente que sai e que entra, e os habituées de sempre sentados na calçada em frente contando causos que, de tanto repetir, viravam verdades.
E é de lá que vejo sair o Pernambuco. Meia estatura, delgado, chapéu de feltro quebrado nas abas e uma barba rala sempre por fazer. Na verdade, ninguém sabia se ele era mesmo de Pernambuco. Quase certo que não. Na época, todo nordestino era de Pernambuco se não fosse baiano. Sem profissão certa, vivia de fazer bico. Em troca de comida e uns goles de uma boa cachaça Colmanetti.
Quando o trem era o melhor meio de levar gente e mercadoria, o Pernambuco tinha trabalho todos os dias. Era o trem chegar e lá estava ele com sua carriola a esperar por encomendas que vinham de longe e que ele repartia a cada uma das poucas lojas e armazéns da cidade. Os fins de semana eram para shots e catira, com um paletó apertado e um sapato bicolor, sua marca registrada.
No que o Pernambuco sai do bar encontra com o Chocolate que vinha subindo pela rua Juvenal Campos. São amigos. Quando as encomendas eram muitas, fato raro naqueles tempos, o Pernambuco sempre pedia ajuda ao Chocolate. Filho caçula do Zé “Iporta”, alto e forte como um touro selvagem, cara grande e larga, pele amorenada, palmeava um saco de cimento como se fosse de palha. Com poucos dotes no futebol, mal dava para goleiro do segundo time. Mas ninguém se atrevia a barrá-lo. Nesta época era normal os jogos terminarem em pancadaria. Com torcida incluída. E nesta hora o Chocolate mostrava o seu valor. Sozinho se encarregava de metade dos adversários. E garantia o placar, dentro e fora das quatro linhas.
Entretido com eles nem vejo o tempo passar e o sol caindo no horizonte pincelando o entardecer com cores variadas num espetáculo único e inesquecível. É quando vejo se aproximar o Zé “Iporta” com um olho tapado de algodão e seu bastão mágico com o qual acionava e desligava o sistema de iluminação da cidade. Penso comigo, certeza que me vai pedir um “cabin” amarelo, que é como ele se referia aos cigarros com filtro. Quando tiro o maço de cigarros do bolso alguém por atrás me toca o ombro. Me viro e dou de cara com o João Portador, que trabalhava para a Cia. Mogiana. Me entrega um papel. Abro-o, é uma espécie de telegrama. Nele estava escrito: acorde. E acordei!
Dezembro, 2023
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